segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Uma visão da ciência no Brasil

A rotina ainda não engrenou. Mas recebi uma entrevista interessante esses dias que vale a pena dar uma passada de olho. O sujeito fala sobre como anda a ciência atualmente no Brasil, e, evidentemente, qual a perspectiva da coisa.

Uma palavra sobre o entrevistado: ele é um cara hiper-ativo, que quebrou o pau com meio mundo no sudeste e se mandou pra Natal. Fez o esquema dele por lá, atropelou muita gente que ele deixou pra trás, e hoje controla com mão de ferro seu empreendimento. Louve-se o sucesso da iniciativa e da empreitada. Mas, dizem os mais próximos, e que conhecem a figura, que ele pega pesado demais na competição e não é lá muito camarada, por assim dizer. Apesar de posar como um sujeito legal e amável, diz-se que a coisa passa um tanto longe disso.

Seja como for, o cara frequenta a boataria de Prêmio Nobel, o que seria uma maravilha pra ciência brasileira, pois ele mostrou que dá pra fazer ciência de ponta dos grandes centros. Mas, alguns afirmam que seria uma desgraça, pois incentivaria um modelo de trabalho feroz e cujos objetivos são distorcidos. A julgar pela entrevista, não se chega nem a um e nem a outro ponto. Não importa. O que importa é que há um ponto de vista. E pontos de vista sempre são bem-vindos, pois permitem a discussão.

E entrevista está nesse link aqui.

Boa leitura.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Patenteando a Amazônia

Excelente o artigo do Montagna sobre patentes. Mas, se você é um daqueles que concorda que as patentes são uma maldição e que fármacos deveriam ser de domínio público, pois salvam vidas, então experimente trabalhar de graça.

O que é uma patente? Veja a definição do 35 U.S.C. § 101 do Patent Act de 1793: "Whoever invents or discovers any new and useful process, machine, manufacture, or composition of matter, or any new and useful improvement thereof, may obtain a patent therefor, subject to the conditions and requirements of this title. Tradução precária: "Quem quer que invente ou descubra qualquer processo, máquina, processo industrial ou composição material, ou qualquer aperfeiçoamento novo e útil dos mesmos, poderá, portanto, obter uma patente, sujeita às condições e requerimentos desta lei". Então, uma patente tem que ser algo novo e útil.

John Craig Venter, no seu projeto 'genoma humano' tentou, mas não conseguiu, patentear genes. Sem dúvida, seu projeto é algo novo, mas onde está a utilidade? A utilidade poderia surgir a partir do momento que seu grupo descobrisse como diagnosticar e curar uma doença genética.
 
Muitas pessoas no Brasil acreditam que o gringo chega na floresta Amazônica, rouba umas plantinhas, e logo depois se torna milionário, patenteando algo que pertence ao patrimônio nacional. Não é bem assim.  Uma pessoa versada em farmacognosia poderia facilmente descobrir uma molécula nova proveniente de uma planta da floresta Amazônica. No entanto, seria necessário gastar centenas de milhões de dólares para que seja possível provar que tal descoberta é útil para a cura de uma doença. Isto inclui fazer testes in vitro, testes em animais, e, se tudo der certo, fazer ensaios clínicos. Enfim, não importa se um brasileiro ou um estrangeiro descobriu uma molécula produzida por uma planta ou animal na Amazônia. Para se conceder a patente à alguém, é necessário provar que a descoberta seja nova e útil.

Artigo publicado originalmente em FeixeVerde.

Doutores

O título de doutor no Brasil parece dar um ar de divindade reverencial ao portador, habilitando-o a opinar sobre qualquer assunto. A cobiça é tanta, que gente que não tem o título, julga tê-lo; outros omitem que não têm ou até mesmo mentem que têm. Para mim é simples: doutor é aquele que fez doutorado. No Brasil, advogado é doutor, mesmo após ter cursado a graduação por quatro ou cinco anos e ter sido aprovado pela OAB. Médico também é doutor, pois basta terminar o ensino médio e  mais seis anos de estudos para ganhar o cobiçado título. Até mesmo farmacêutico é doutor; pelo menos é isto que está escrito na carteirinha do Conselho Regional de Farmácia. Uma comparação rápida: nos EUA, só se entra numa escola de medicina ou direito depois de ter cursado outras matérias na graduação (como química, biologia, história etc) por pelo menos quatro anos. Para ser farmacêutico, algumas escolas de farmácia exigem pelo menos dois anos de graduação para que o aluno possa ser aceito.

De fato, tem cidadão que confunde a situação de doutorando com o título de doutor. Veja, por exemplo, o caso da presidenta: por pelo menos duas vezes, a Sra. Dilma Rousseff em entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, é introduzida como "economista com doutorado em teoria econômica". Mais tarde, em 2009, quando foi descoberto que ela nunca havia defendido a tese, ela diz "por que eu não defendi a tese? [...] por que eu estava trabalhando". Ora, porque então a senhora não falou que não tinha o título de doutorado cinco anos antes, no programa Roda Viva?

É claro que omitir não é tão grave quanto mentir. Em 2006, Aloízio Mercadante diz durante debate com candidatos ao governo de São Paulo: "Me formei na Universidade de São Paulo, fiz meu mestrado e doutorado na Unicamp". O curioso é que o recém doutor, Aloízio Mercadante, defendeu sua tese dia 18 de dezembro de 2010! É o exemplo clássico 'doutorando doutor'. Pasmem, o Dr. Aloízio Mercadante defendeu sua tese duas semanas antes de assumir o Ministério da Ciência e Tecnologia, aquele mesmo que cuida das bolsas de doutorado e das verbas de pesquisa!

Gostaria de dar só mais um breve exemplo. Na verdade, o Sr. Drauzio Varella mereceria não um só, mas vários artigos ou até um livro, tamanha é a afetação de superioridade que este graduado em medicina e estrela da mídia possui. Em entrevista no Programa do Jô, por volta da época que a lei de repressão ao tabaco foi aprovada, ele diz "a nicotina vicia mais que a heroína, que a cocaína que a maconha, que qualquer outra droga". Para comprovar, o médico, que jamais publicou um só artigo em revista científica, declara que estudos demonstram que ratos de laboratório preferem apertar o botão que fornece nicotina ao invés de apertar o que fornece comida. Ele só esqueceu de verificar que o mesmo é vedade para outras drogas, como cocaína e heroína. Depois ele afirma que durante seu trabalho em presídios, os viciados em cocaína, crack ou maconha largam estas drogas, mas não largam o cigarro. Segundo este senhor, o tabaco é a droga mais perigosa do mundo! Só esqueceram de avisá-lo que o tabaco ainda não é ilegal, mas as outras drogas sim. Além disso, nunca vi ninguém ficar 'chapado' por que fumou um cigarro. Nunca vi ninguém sofrer um acidente de carro, morrer de overdose ou assaltar por ter queimado um punhado de folhas de Nicotiana tabacum. Contudo, o Sr. Drauzio Varella não quer que você aceite os fatos, pela simples razão que o que ele diz é a própria verdade. Afinal, ele é 'doutor'.

Publicado originalmente em FeixeVerde.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

De volta ao batente

Cá estamos, depois de bons dias com os pés pra cima. Descanso merecido. Agora, voltamos com tudo.

Semana que vem tem reunião na faculdade, essa semana tem um monte de coisas no lab, notícias foram muitas, mas juro que não dei bola pra nenhuma.

Mas, lá pelas tantas, aparece um velho amigo que anda perdido nesse mundão e que escrever umas barbaridades maiores que as minhas. Não resisti e convidei a figura. Controvérsia garantida.

Ele tem um canto meio bolorento que fica nesse link aqui. Mas, como ele nunca escreve lá, chamei o cara pra nunca escrever aqui. Se tudo deu certo, o link também aparece aí na barra ao lado.

Ele é farmacêutico, doutor em Química Farmacêutica e doido de amarrar no poste!!!

Findas as apresentações, vamos ao que interessa.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Recesso

Minas caras, meus caros.

Após um ano cheio de histórias pra contar, finalmente, depois de muito tempo, vou conseguir tirar uns dias de férias propriamente ditas.

Neste ínterim, não vou aparecer por aqui. Volto depois das festas. Dia 3 estamos de volta.

Boas festas aos leitores e leitoras!

Nos vemos ano que vem

domingo, 12 de dezembro de 2010

Por que a coisa vai mal - Parte IV

Por que tanta insistência em insistir no óbvio? Sabemos que a coisa vai mal, não sabemos?

Mas, somos cientistas. E cientistas não podem "achar" nada sem dados. Não temos o direito de achismos. Devemos ter os dados, interpretá-los e com isso emitir uma opinião. O caso é que os dados são tão absurdamente claros, que chegam a ser auto-explicativos.

Pois vejam o tamanho de desastre nesse link aqui, onde se mostra que os alunos não conseguem LER... isso mesmo, não conseguem ler - como se isso fosse novidade.

E nesse link aqui, podemos ver que o Brasil não consegue sair do lugar nos parâmetros internacionais de qualidade de ensino. Na verdade, a comparação com Finlândia, Suécia e Holanda não é justa. Devemos comparar o Brasil com países com o mesmo poder de fogo que o nosso, por exemplo, Chile e México. E a vergonha é ilimitada, pois esses caras conseguiram melhorar substancialmente e os tupiniquins, necas...

E a coisa vai mal...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Por que a coisa vai mal - Parte III

Os cientistas, professores, técnicos, inclusive os comuns, todos têm uma paranóia por ouvir a opinião de um especialista. Afinal de contas, o especialista sabe muito de um dado assunto, e dele deve surgir a opinião mais relevante sobre esse assunto. Mas, ultimamente tenho me queixado de um fato inegável e infeliz: decidi ser especialista numa coisa que todo mundo se acha especialista, dar aulas. 

Trabalho com pesquisa em ensino de ciências, dentre outras coisas. E quanto mais estudo, mais vejo que ensinar, estruturar cursos e aulas, e toda a preparação pedagógica, não é simplesmente saber montar bons slides e falar bem na frente de pessoas. Na verdade, qualquer elemento componente de uma aula deve ser milimetricamente pensado e planejado para que as coisas dêem certo. Mas sabemos que a coisa não funciona assim. Para a maioria, basta ter um conteúdo aprofundado, uma boa sequência (que os livros se encarregam de oferecer), e sentar o pau nos alunos - afinal de contas, não se deve dar moleza pra aluno. Essa visão é a coisa mais retrógrada, ultrapassada e medieval possível, na medida em que coloca no centro da questão o conteúdo, e não o aluno. Só que a informação muda ao longo do tempo. E o aluno deve ser ensinado a como lidar com a velocidade dessas mudanças.

Cá estava eu lendo essa notícia (neste link aqui) e me pus a pensar na infelicidade dos nossos alunos quando entram no ensino superior. Eles se deparam com a estrutura mais careta, reacionária e engessada possível - aquela mantida arduamentre pelos dinossauros. Não vou me estender muito na crítica, pois ela não é meu foco. Meu foco é mostrar a alternativa. E mostro duas. A primeira, dividida em duas partes, de Sir Ken Robinson, em duas palestras divertidas e contundentes no bom e velho TED. A segunda, num videozinho curto produzido por alunos de uma turma de sociologia da Kansas State University - coisa primorosa e avassaladora sobre a mentalidade medieval da universidade atualmente. TED com legendas, o outro, apesar de ser em inglês, não requer grande domínio da língua. Ambos valem muito a pena. E ambos mostram muito bem por que a coisa vai mal.

 





terça-feira, 26 de outubro de 2010

Por que a coisa vai mal, parte II

No outro post, metemos o pau nas falhas da educação. Coisa séria, e não deve ser negligenciada quando pensamos nas coisas que vemos cronicamente erradas. Mas, a mãe de um amigo costumava dizer que a cultura amansa o ser humano. E concordo com as palavras dela. Só educação não basta, ou pelo menos, a cultura faz parte da educação. Instrução apenas é quase como adestrar animais... como se estivéssemso muito longe disso.

Nem preciso dizer que não fui surpreendido pela notícia de que não se consome cultura em São Paulo - pode ser visto nesse link aqui. Shoppings sim. Cultura não. Cultura não é uma coisa que se possa exibir; é pedante, não? Sendo assim, queremos coisas. E continuamos ignorantes e semi-selvagens. Como a instrução sozinha não garante educação, e sem cultura não temos educação, preciso comentar algo mais sobre o estado lamentável em que se encontram as coisas?

Não sou fã de teatro. Vi meia dúzia de peças e acho meio chato. Também admito que não vejo muita graça nos museus de São Paulo - acho que podia ser muito melhor. Mas também admito que sinto falta de um circuito de cinema mais alternativo e um circuito musical mais decente e valorizado; também advogo que há bem mais cultura do que somente shows, museus e cinemas - qual foi o último livro decente que se leu por aí?

Vamos mal... vamos muito mal...