segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sonhos da Indústria Farmacêutica I - Cronificação

A indústria farmacêutica é um dos ramos mais lucrativos do mundo. Não por acaso andou pairando acima do bem e do mal em tempos de crise. O pessoal deixa de viajar, comprar coisas, trocar de carro, fazer o diabo, mas remédio não entra na lista de cortes. Junto com isso, devemos deixar de ser hipócritas e idealistas e parar de pensar na indústria farmacêutica como algo pro bem da humanidade. Não é. Como qualquer indústria, ela visa o lucro. Ponto final.

Tendo isso como ponto de partida, devemos imaginar quanto custa colocar um remédio no mercado - toda a pesquisa necessária pra fazer uma molécula sair do laboratório de uma universidade e cair nas prateleiras das farmácias. É uma grana grossa. Justificada, não justificada, necessária, desnecessária... não vou comprar essa briga por enquanto. A idéia agora é tratar dos sonhos de consumo da indústria: como lucrar o máximo, pelo máximo tempo possível.

Não é necessário nenhum exercício intelectual muito profundo pra se chegar na condição médica que faz brilhar os olhos da indústria farmacêutica, a doença crônica. Imaginem que um cidadão hipertenso começa a ter problemas lá pelos seus 40 anos de idade, e vai morrer de infarto aos 60. São vinte anos tomando um caminhão de remédios. Mas tem muita gente que não se cuida, por que os sintomas de hipertensão só aparecem quando a coisa já tá grave; o mesmo vale (bem porcamente) pra diabetes tipo II; ouso até dizer que tabagismo e alcoolismo entram pra essa estatística. Mas as duas grandes fatias, caro leitor, aparecem de fontes inauditas. Câncer e AIDS.

Esse ano duas notícias de remédios interessantes para essas doenças apareceram na mídia. A primeira foi uma declaração de Luc Montagnier (Nobel de Medicina de 2008) dizendo que o caminho é tornar a AIDS uma doença crônica (entrevista nesse link aqui). Tirando que o sujeito é só ganhador do Prêmio Nobel pela descoberta do vírus e uma das vozes mais influentes da história recente da ciência e da medicina, o que ele sugere é um sonho brilhante para a nossa indústria. Vejamos... o adolescente contrai o vírus aos 16 anos e pode viver com ele até os setenta e poucos anos (considerando a média de vida humana em países razoavelmente bem das pernas). Isso significa coisa da ordem de cinco a seis décadas consumindo um remédio que não será barato. Afinal de contas, a morte por HIV é horrenda. Tendo ou não grana, o sujeito vai se virar pra evitar isso - e se ele não puder pagar, vai fazer de tudo pro governo do país dele bancar. Não importa quem compra, o que importa é vender.

Outro caso interessante é o do câncer. Alguns fármacos descobertos recentemente têm atividade que controlam o crescimento ou até mesmo fazem regredir certos tipos de cânceres. Um deles, não tão recente, mas um dos mais importantes, é o Glivec. Enquanto se consome o remédio, nada de câncer. Parou, o câncer volta. Alguém se arriscaria?

No final pergunto: se é possível cronificar uma doença, pra que procurar uma cura? Pra tratar o sujeito e ele nunca mais ter que ver aquele remédiod e novo? Nem a pau... a ordem do dia é cronificar. Anotem essa palavra, pois nossa saga continua.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Associação Brasileira de Portadores de Angioedema

A pedido de uma colega da FOC, vai um post pra divulgar o trabalho da Associação Brasileira de Portadores de Angioedema, que pode ser visto neste link aqui. Colocaremos o link aí na barra de ferramentas pra ficar sempre visível. Pro pessoal que acompanha o nosso blog e que também tem um blog, espalhem a informação. Esperamos que a divulgação possa atingir pessoas que venham a se beneficiar desse trabalho.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Respeito e tolerância.

Gosto de tema, respeito e tolerância. Acho que as palavras têm muito em comum, mas são usadas de forma indiscriminada e, principalmente, são intercambiadas de forma equivocada. Respeitar é uma coisa, tolerar é outra. Nos aprofundamos na questão mais adiante. Por enquanto, vai um link para um texto, meio longo, mas que vale a pena, sobre tolerância. Onde ela surge de forma mais visível e suas conseqüências sociais. Comento o texto depois. Por enquanto, vamos ao dito cujo que está nesse link aqui. Critiquem.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Em algum lugar do passado...

Nesta semana que chamam de "santa", a última que passou e todo mundo suou água com açúcar, pude visitar a minha querida Galeria do Rock. Hum!!! Antes de irmos, eu, minha namorada e um amigo que passou a semana em meu apartamento, procurei aquela camiseta surrada de banda, aquela bota de couro que transforma os dedos em amoras, dinheiro trocado para um café (antes era para bomberinho e cerveja mas...) e saí todo empolgado em direção ao que era meu refúgio nas tardes de sábado quando tinha meus 14 aninhos. A sensação estava de pura nostalgia, meus pensamentos tinham cheiro e sabor. Minha namorada empolgadíssima de tanto que já havia falado para ela sobre a Galeria do Roooooockkk... cara, animal!!! aham, desculpem-me.

Enfim, tudo estava maravilhoso até eu perceber que estava sentado no banco do meu carro. Ué? Péra aí!! Tem alguma coisa de errado. Nunca tinha ido para a galeria de carro, coisa óbvia! Mas não desanimei, meti um Sabbath no Cacareco (meu carro) e seguimos nosso destino. Detalhe, quem me ensinou o caminho até a galeria foi meu amigo que mora na Bahia, nasceu em Belém do Pára e viveu em São Paulo uns anos.

Não foi difícil chegar, cidade vazia, excelente companhia e cigarros. Difícil foi ter que desembolsar vinte pilas por 3 horas de passeio. A nostalgia foi passando a cada passo. Lojas diferentes, novas tribos, novas marcas, novos bonecos (que absurdo!) e de repente... tudo ruiu, quando vi, que o meu boteco preferido, virou uma hamburgueria!!!!

A Galeria do Rock, para mim, era um ponto de encontro que honrava seu nome... ROCK. Decepcionei-me na hora, mas passou quando percebi que, o primeiro cd que adquiri naquele lugar, o meu grande sonho de consumo na época, Paranoid do Black Sabbath, estava o mesmo preço de um hamburguer do meu estimado antigo buteco, R$ 8,80. Na época em que comprei este cd, ele deveria custar o dobro e mais uns 3 contos. Logo pensei, "cacete Leo!!! você já envelheceu o suficiente para poder perceber que o sonho não morreu cara, ele virou hamburguer"... e sempre vai virar alguma coisa.

Por sinal, o hamburguer era bom mesmo, recomendo. Terceiro piso. E uma coisa que gostei de ver na Galeria também, o respeito entre os frequentadores, pelo menos ninguém se agrediu enquanto lá estive. E desta vez, não prefiro recair.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Quando não dá para parar de pensar, pensemos em outra coisa...

Quando me deparei com esta citação, apropriada por mim descaradamente (prometo encontrar o autor), aí que não consegui parar de pensar mesmo. Será que é possível ficarmos por um intervalo de tempo sem pensar em nada?

Os praticantes de Yoga em suas meditações dizem que sim. Eu acredito, afinal de contas, que nesta prática há uma conjunção interessante entre mente e corpo. Mas fica uma pergunta para os meus amigos mais próximos das biológicas do que este réles pensador da mente e do comportamento humano. Será que os arcos-reflexos não geram algum tipo de pensamento, inconsciente que seja? E se os praticantes de Yoga meditam para o autoconhecimento e entram em contato com seu inconsciente, supostamente esta entidade psíquica elaborada por Freud, e cerne de toda base filosófica ou científica da psicanálise, seria um caos que se não penetrado com as devidas precauções, causariam danos irreversíveis a estrutura da psique humana. Gostaria de saber, então, se algum praticante pode me esclarecer sobre isso. De como é a orientação e o seu método, pois o que vejo em livros não sustenta minha saciedade de conhecer um relato de quem pratica esta "filosofia de vida".

Do mais, temos Isabella e Nardoni, Glauco e Psicose, analogias simples de gente quase parecidas; a diferença seria o uso de drogas num caso e no outro a falta de uso da droga certa...recomendaria Zyprexia...mas não posso receitar...e neste ínterim de infanticídios e homicídios perpetuados pela estupidez, não poderia deixar de dizer que...eu hein...Prefiro recair.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Finalismo e Intencionalidade

Quando estudamos ciência, temos um péssimo hábito de dizer que "células fazem isso" ou que "receptores decidem aquilo". Na verdade, não, células e receptores não decidem fazer isso ou aquilo. Simplesmente há uma enorme cadeia de eventos que são meramente mecanísticos, portanto sem qualquer intenção; equilíbrios químicos, alterações de voltagem, interações moleculares, e eles acontecem da forma que acontecem, pois durante milhões de anos de evolução e seleção natural, as coisas ficaram como são e não há nenhuma finalidade nisso.

É difícil lidar com isso, uma vez que fomos criados numa tradição cultural em que sempre deve haver um motivo para os acontecimentos, sejam eles quais forem. Não há motivo. As coisas acontecem do jeito que acontecem e são como são. Ponto final.

Isso dificulta demais as nossas explicações, pois sempre procuramos um modo de colocar as coisas de forma compreensível. Assim, acabamos por sacrificar o rigor pra sermos entendidos. Pior pra todo mundo: pro aluno, que aprende uma coisa potencialmente danosa pro seu entendimento futuro de outros conceitos; pior para o professor, que terá que conviver com suas metáforas eternamente sendo replicada nas provas, e para quem for usuário dos conhecimentos desses formandos num futuro próximo.

Papo de doido? Pois leiam essa reportagem aqui e me digam se isso não é fruto de simplificações equivocadas, mal-feitas e absurdamente infelizes - apesar de bem intencionadas. A célula tumoral passa a ter poderes de James Bond e parece que fármacos e tumores brincam de Tom & Jerry. Tudo bem, vão me dizer que é para o público leigo, que nós cientistas temos que sair da nossa torre de marfim e levar o conhecimento para o público. Ótimo. Mas a que custo?

Com o aumento do acesso à rede, qualquer pessoa lê qualquer coisa (vide post abaixo) e acha que pode sair por aí dando pitacos e ser um especialista. Esse é outro problema. Sério, mas em outro lugar. Aqui nesse post a pergunta é: conseguimos extirpar todo o finalismo e intencionalidade das nossas palavras, explicações e conceitos? Belíssimo desafio... mas vale tentar.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Interferências cibernéticas

Discute-se muito o papel da mídia na educação. Isso está se ampliando, já que tanto as mídias têm se expandido em quantidade e abrangência, com a informação se tornado cada vez mais disponível (mesmo que geralmente com qualidade abaixo do sofrível); e a educação, ou pelo menos os processos de aprendizado, têm saído cada vez do âmbito exclusivo do processo formal, ou seja, se aprende cada vez mais fora da escola (seja ela qual for).

As conseqüências disso são imprevisíveis, mas aos poucos vão aparecendo dados que quantificam esse fenômeno. Numa matéria que pode ser lida aqui, um pessoal mostrou como o acesso à internet direciona algumas escolhas dos pacientes em procedimentos médicos. A pesquisa mostra que os pacientes, quando possível, optam por determinada forma de anestesia em detrimento de outra quando têm acesso à informação.

Não é de se estranhar. Temos visto um "boom" de pseudo-especialistas dando pitacos em blogs, sites e o diabo a quatro por aí sem ter um pingo de noção do que se fala. Lúpus, câncer, diabetes... a lista é infinita!!! De repente todo mundo virou especialista em alguma coisa...

Quanto disso é da nossa conta? Bom, é da nossa conta o fato de a wikipedia ter seções dedicadas à farmacologia, a Anvisa ter um bulário online e até o "How Stuff Works" ter páginas sobre Síndrome do Pânico com sintomas, diagnóstico e tratamento. Auto-medicação não é simples, auto-diagnóstico menos ainda: síndrome do pânico não é prisão de ventre! Mas os "especialistas" vicejam ao largo. Não que a wikipedia seja uma porcaria: geralmente não é (pelo menos em inglês). Mas daí, de se ter uma noção ultra-superficial de uma doença a se imaginar capaz de dar opinião sobre o caso, tem um enorme abismo.

Não sou contra a propagação da informação, pelo contrário, temos sim que ter acesso. Mas mais do que isso, temos que ter noção que não entendemos do assunto. E aí é que mora o perigo... aí é que está a encrenca.